30 de setembro: Dia Internacional da Tradução
“A tradução entre Português e Libras não é uma simples troca de palavras. Ela envolve escolhas linguísticas, culturais e estratégias visuais.” – Carol Broedel
Celebrado em 30 de setembro, o Dia Internacional da Tradução reconhece a importância do trabalho de tradutores e intérpretes na construção de pontes entre diferentes línguas, culturas e formas de comunicação. A data também convida a refletir sobre a atuação desses profissionais na promoção do acesso à informação, à educação e à participação social.
No campo da acessibilidade linguística, a tradução e a interpretação entre Libras e Língua Portuguesa ocupam um espaço fundamental para a garantia dos direitos linguísticos das pessoas surdas e não surdas. No Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), esse trabalho está presente em diferentes contextos educacionais e institucionais, envolvendo desde a interpretação até a tradução e produção de materiais e conteúdos acessíveis.
Em alusão ao Dia Internacional da Tradução, o Napne/Cefor convida a comunidade a conhecer um pouco mais sobre o trabalho das tradutoras e intérpretes de Libras e Língua Portuguesa que integra a equipe do Cefor. Nesta conversa, compartilha aspectos de suas trajetórias, de atuação profissional e dos desafios e possibilidades que atravessam o trabalho de tradução entre Libras e Português.

Da esquerda para a direita: professora Rutinelli Fávero e as tradutoras e intérpretes Eliana Burgarelli, Bárbara Eloah, Alessandra Lepaus e Carolina Broedel.
Diferentes caminhos até a tradução
Embora atualmente compartilhem a mesma profissão, o encontro de cada uma delas com a Libras aconteceu por caminhos diferentes.
Para Carol Broedel “A Libras entrou na minha vida meio de surpresa”, tudo começou de maneira inesperada. Depois de não ter sido aprovada no vestibular, ela buscou outras possibilidades e encontrou um processo seletivo para cursos técnicos da Secretaria de Estado da Educação (Sedu).
“Entrei no curso sem ter nenhum contato prévio com a língua, então no começo foi desafiador, mas depois disso não parei mais”, conta. Hoje, Carol soma cerca de dez anos de atuação em sala de aula como intérprete e, há três anos, trabalha no Cefor com a tradução de materiais para o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA).
Na história de Eliana Burgarelli, o primeiro contato aconteceu ainda na escola, muito antes de ela imaginar que a Libras se tornaria parte de sua profissão.
“Foi em 1997, quando eu estava na 7ª série e tive um colega surdo. Esse foi, pelo menos de que me lembro, o meu primeiro contato com a língua”, recorda.
Anos depois vieram a formação técnica em Tradução e Interpretação de Libras, a atuação profissional em diferentes contextos, a graduação em Bacharelado em Letras-Libras na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), o Prolibras e novas experiências profissionais. “Aos poucos, aquilo que começou com um encontro ainda na escola foi se transformando na minha trajetória profissional.”
A experiência de Clara Marques também começou a partir da convivência com um colega surdo. Durante o ensino médio técnico em Eletrotécnica, ela se aproximou do estudante, tornou-se sua amiga e começou a aprender Libras.
Com o tempo, passou a interpretar de Libras para Português partes das apresentações realizadas pelo colega e também se envolveu voluntariamente com a língua em sua igreja. Até então, Clara imaginava seguir profissionalmente na área de exatas.
“Houve um ponto em que percebi que a tradução e interpretação em Libras era minha vocação profissional”, relata.
A partir dessa percepção, realizou exame de proficiência em tradução e interpretação de Libras e Português, ingressou no curso de Letras-Libras da Ufes e, posteriormente, foi aprovada em concurso para atuar no Ifes. Desde então, segue investindo na formação continuada voltada à sua atuação na educação profissional e tecnológica.
Entre duas línguas, muitas escolhas
Uma das imagens mais conhecidas do trabalho de intérpretes de Libras é a do profissional posicionado ao lado de um palestrante. Mas essa é apenas uma das possibilidades da profissão.
“Muita gente ainda pensa que o nosso trabalho é só sinalizar ao lado de um palestrante, mas vai muito além disso”, destaca Carol.
Por trás de uma tradução ou interpretação há preparação, estudo do conteúdo e compreensão do contexto no qual a comunicação acontece. Esses elementos interferem diretamente nas decisões tomadas pelo profissional.
A tradução entre Libras e Português também não acontece por meio da simples substituição de uma palavra por um sinal correspondente.
No Cefor, um dos exemplos desse processo está na tradução de materiais destinados ao Ambiente Virtual de Aprendizagem Moodle.
Antes de aparecer diante das câmeras, existe um trabalho que nem sempre é percebido por quem assiste ao produto final. A equipe estuda os conteúdos, compreende o contexto, pensa nas estratégias de tradução e somente depois realiza a gravação.
Esse processo evidencia uma dimensão essencial do fazer tradutório: traduzir é produzir sentidos entre línguas diferentes, considerando suas características linguísticas, culturais e discursivas.
No caso da Libras, as escolhas passam também por aspectos visuais próprios de uma língua de modalidade visuoespacial. Por isso, o trabalho exige do profissional conhecimentos linguísticos e tradutórios, além de preparação contínua para os diferentes contextos nos quais atua.
Traduzir também é garantir direitos linguísticos
A atuação de tradutores e intérpretes de Libras também está diretamente relacionada aos direitos linguísticos das pessoas surdas.
Para Eliana, compreender essa dimensão ajuda a superar uma visão que limita esses profissionais à função de recursos de acessibilidade.
“A tradução e a interpretação não devem ser compreendidas apenas como ferramentas ou recursos de acessibilidade. Tradutores e intérpretes atuam também como agentes de garantia de direitos linguísticos, possibilitando o acesso à informação, à comunicação e à participação social em diferentes espaços.”
Essa perspectiva também reforça a importância de pensar a tradução e a interpretação desde o planejamento das ações, considerando previamente as línguas, os públicos e as formas pelas quais determinado conteúdo será produzido e disponibilizado.

Da esquerda para a direita: as tradutoras e intérpretes Clara Marques Bodart e Eliana Burgarelli.
Tradução presente nas ações do Cefor
No Cefor, a atuação em tradução e interpretação de Libras e Língua Portuguesa atravessa diferentes ações e contextos institucionais, incluindo atividades de ensino, pesquisa, extensão e produção de conteúdos educacionais.
Cada interpretação realizada, cada conteúdo estudado e cada material traduzido envolve escolhas profissionais que permitem que informações e conhecimentos circulem entre línguas diferentes.
Neste Dia Internacional da Tradução, o Cefor reconhece e parabeniza Carol Broedel, Eliana Burgarelli e Clara Marques, assim como as demais tradutoras e intérpretes que integram sua equipe, e estende a homenagem a todas e todos os profissionais de tradução e interpretação que atuam nos cursos, projetos e demais ações da instituição.
Mais do que aproximar palavras ou sinais, traduzir é construir possibilidades de encontro entre línguas, pessoas e conhecimentos.
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