Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência
Setembro reúne datas que convidam à reflexão sobre direitos, acessibilidade e inclusão. Em alusão ao Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado em 21 de setembro, ao Dia Nacional do Surdo, em 26 de setembro, e ao Dia Internacional da Tradução, em 30 de setembro, o Napne/Cefor bate um papo e apresenta a trajetória de Bárbara Eloah Lopes, tradutora e intérprete de Libras e Língua Portuguesa. Essa conversa propõe uma reflexão sobre protagonismo, participação social e os desafios que ainda precisam ser enfrentados para a construção de uma sociedade mais inclusiva e sem barreiras.
Bárbara integra atualmente a equipe de tradutoras e intérpretes de Libras do Centro de Referência em Formação e em Educação a Distância (Cefor), atuando junto à Coordenadoria Geral de Tecnologias Educacionais (CGTE).
É bacharela em Tradução e Interpretação de Libras e Língua Portuguesa pelo curso de Letras-Libras da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e técnica em Tradução e Interpretação de Libras pela Secretaria de Estado da Educação do Espírito Santo (Sedu-ES). Sua trajetória profissional reúne experiências em contextos educacionais, culturais, institucionais e comunitários.
Sua atuação também se estende à pesquisa e às discussões sobre linguagem e acessibilidade. Bárbara integra o Círculo de Estudos Indisciplinares com Línguas de Sinais (Ceilis) e o grupo de pesquisa LingCognit: Língua(gem) Cognição: Interfaces Tradutórias e Interpretativas, além de participar da Comissão de Acessibilidade da Ufes.
A partir de sua trajetória e de suas experiências, Bárbara compartilha reflexões sobre deficiência, acessibilidade, participação e sobre a importância de pessoas com deficiência ocuparem também os espaços de trabalho, pesquisa e produção de conhecimento.
Mas sua história não se resume ao currículo profissional e acadêmico. As diferentes formas de linguagem também atravessam seus interesses pessoais. Bárbara pinta quadros, toca teclado, violão e ukulele e encontra na música, no cinema e na leitura outras possibilidades de expressão.
“Essas atividades fazem parte do meu cotidiano e ampliam minha percepção sobre diferentes formas de comunicação, expressão e produção de sentidos”, conta.
Da presença ao protagonismo
Nas últimas décadas, o debate sobre deficiência tem avançado da compreensão centrada apenas no indivíduo para uma perspectiva relacionada aos direitos, à cidadania e à participação social. Para Bárbara, esse movimento tem contribuído para ampliar as discussões sobre acessibilidade e sobre a eliminação das barreiras que impedem ou limitam a participação das pessoas com deficiência.
Os avanços, entretanto, convivem com desafios que permanecem no cotidiano.
“A pessoa com deficiência ainda é, muitas vezes, invisibilizada pela sociedade ou, quando percebida, colocada em lugares marcados pelo capacitismo e pela infantilização.”
Superar essas barreiras envolve reconhecer pessoas com deficiência em sua integralidade: como pessoas que estudam, trabalham, pesquisam, ensinam, constroem relações, constituem ou não famílias, envelhecem e fazem escolhas sobre as próprias vidas.
“Somos pessoas como quaisquer outras e, portanto, também temos o direito de fazer escolhas sobre nossas vidas”, afirma Bárbara.
Essa compreensão também modifica a forma de pensar a acessibilidade. Rampas, elevadores e adequações arquitetônicas são fundamentais, mas não esgotam o tema. Há barreiras comunicacionais, pedagógicas, tecnológicas, atitudinais e institucionais que também precisam ser consideradas.
Por isso, mais do que ações isoladas ou concentradas em determinadas datas, Bárbara defende que a inclusão deve fazer parte do planejamento cotidiano das instituições.
Pessoas com deficiência também produzem conhecimento
A presença das pessoas com deficiência nos espaços educacionais e profissionais não pode se restringir à condição de público atendido pelas políticas de inclusão.
Elas também são servidoras, profissionais, pesquisadoras, bolsistas, estudantes, professoras, gestoras e produtoras de conhecimento.
Para Bárbara, ocupar esses lugares amplia a participação social e, ao mesmo tempo, contribui para transformar as próprias instituições.
“A diversidade de experiências permite identificar barreiras que muitas vezes não são percebidas por quem não vivencia a deficiência.”
Quando pessoas com deficiência participam da pesquisa, do ensino, da gestão e dos espaços de decisão, diferentes experiências passam a fazer parte da construção das políticas, dos serviços e das práticas institucionais.
É nesse deslocamento — de uma lógica que apenas reconhece a presença para outra que garante condições efetivas de participação — que está um dos principais desafios apontados por Bárbara.
Acessibilidade se constrói todos os dias
O 21 de setembro é uma oportunidade para dar visibilidade às lutas históricas das pessoas com deficiência. Para Bárbara, contudo, a reflexão não pode terminar quando setembro acabar.
"Acessibilidade e inclusão não devem ser compreendidas como concessões ou favores, mas como direitos fundamentais e condições necessárias para a participação em igualdade de direitos na sociedade. A pessoa com deficiência não deve ser lembrada apenas em setembro ou no dia 3 de dezembro. Essa reflexão precisa fazer parte do cotidiano, das decisões e das práticas da sociedade durante todo o ano."
Mais do que permitir que alguém esteja presente em determinado espaço, acessibilidade significa criar condições para que possa participar, decidir, se comunicar, aprender, trabalhar, produzir e exercer sua autonomia.
Isso também passa pela compreensão da equidade: pessoas diferentes podem precisar de condições diferentes para que tenham oportunidades efetivas de participação.
Ao reunir o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, em 21 de setembro, e o Dia Internacional da Tradução, celebrado em 30 de setembro, a trajetória de Bárbara também lembra que comunicação e acessibilidade caminham juntas.
Bárbara deixa um convite que ultrapassa as datas comemorativas:
“Que possamos avançar de uma perspectiva que apenas reconhece a presença da pessoa com deficiência para uma perspectiva que garanta sua participação, autonomia e protagonismo.”
Porque uma sociedade sem barreiras não se constrói somente falando sobre inclusão. Ela se constrói quando diferentes pessoas podem, de fato, estar, participar, escolher e ocupar seus espaços.
Equipe do Napne/Cefor

Todas imagens foram cedidas pela tradutora e intérprete de Libras e Língua Portuguesa Bárbara Eloah Lopes.
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